Há algo profundamente político em decidir quem pode ser visto. E mais ainda em decidir como será visto. Durante séculos, a literatura infantil, os contos populares e as imagens que atravessam a cultura brasileira ensinaram crianças a temer corpos desviantes, criaturas híbridas, sombras, deformidades e diferenças. O monstro sempre foi o outro. O corpo estranho. O que manca, o que gagueja, o que não cabe.
No próximo dia 23 de maio, o encontro “Narrar diferenças, criar presenças”, no Sesc Campinas, propõe justamente o contrário: retirar o peso da monstruosidade como exclusão e transformá-lo em linguagem, presença e imaginação crítica. Integrando a programação do Festival [SUB]Versa, ligado à Feira SUB, o bate-papo reúne Daniel Moraes e Peter O Sagae, com mediação de Marcela e Fabiana Pacola. O tema pode soar acadêmico à primeira vista, mas pulsa em território muito mais íntimo: como inventamos imagens para existir no mundo?
O corpo que o folclore esqueceu
Em Perê, trabalho apresentado por Daniel Moraes, a figura folclórica do Saci reaparece deslocada do exotismo infantil para ocupar outro espaço simbólico: o da deficiência, da corporeidade dissidente e da reconstrução de imaginários historicamente capacitistas.
O gesto é simples apenas na aparência. Recontar o folclore brasileiro pela perspectiva da deficiência significa reescrever uma tradição inteira fundada em caricaturas e ausências. O Saci, por décadas reduzido ao personagem travesso de uma perna só, reaparece agora como pergunta estética e política: quais corpos a cultura brasileira transforma em fábula? E quais ela silencia?
Artista, educador e curador independente, Daniel Moraes desenvolve pesquisas voltadas à corporeidade da deficiência, acessibilidade poética e educação anticapacitista. Seu trabalho investiga o corpo não como limitação, mas como linguagem possível. Em vez de adaptar o mundo a uma ideia normativa de existência, sua produção parece propor o oposto: desmontar a própria norma.
Num momento histórico em que a discussão sobre representatividade frequentemente escorrega para fórmulas publicitárias e discursos esvaziados, sua investigação ganha densidade rara. Não se trata apenas de incluir corpos dissidentes na narrativa, mas de alterar a estrutura da narrativa.
Os monstros também pedem abrigo
Se Daniel revisita o folclore, Peter O Sagae mergulha nas sombras da literatura infantil. Monstros, criaturas, seres híbridos, fantasmas e figuras ambíguas aparecem em sua reflexão menos como ameaça e mais como espelho simbólico das infâncias contemporâneas.
Crítico, ilustrador e pesquisador de oralidade, literatura e imagem, Peter parece interessado justamente na zona em que essas figuras deixam de disciplinar e passam a libertar. O monstro surge não como punição moral, mas como metáfora daquilo que ainda não encontrou linguagem.
E talvez seja aí que o encontro entre os dois artistas aconteça de forma mais potente: ambos compreendem que diferença não é apenas tema — é estrutura de linguagem. Ao falar sobre monstros e deficiência, o bate-papo atravessa também questões de infância, pertencimento, exclusão e afeto. Porque toda criança aprende muito cedo quais corpos são celebrados e quais devem permanecer escondidos.
A força da cena independente
O encontro também ajuda a iluminar o papel crescente das feiras independentes na produção cultural contemporânea.
Em tempos de algoritmos organizando visibilidade e simplificando discursos, espaços como a Feira SUB se tornam territórios de experimentação estética e resistência editorial. Zines, livros artesanais, publicações gráficas e impressos autorais seguem sobrevivendo como espaços onde ainda é possível tensionar linguagem, desafiar formatos e construir pensamento fora das engrenagens mais previsíveis da indústria cultural.
A própria proposta do Festival [SUB]Versa aponta para isso: criar encontros entre literatura, imagem, corpo, memória e dissidência, ampliando as formas possíveis de imaginar o mundo. Presença como forma de resistência “Narrar diferenças, criar presenças” talvez seja um dos títulos mais precisos possíveis para o nosso tempo. Porque presença, hoje, deixou de ser apenas ocupação física.
Tornou-se disputa simbólica.
Quem aparece nas histórias? Quem ilustra os livros? Quem é desenhado como herói? Quem é reduzido a metáfora do medo? O encontro no Sesc Campinas não parece interessado em respostas prontas. Sua força está justamente na capacidade de abrir perguntas difíceis — aquelas capazes de alterar a maneira como olhamos para um livro infantil, uma figura folclórica ou um corpo atravessando a cidade.
No fundo, trata-se de imaginar outras possibilidades de existência. E talvez toda arte realmente transformadora comece exatamente assim: quando alguém decide olhar novamente para aquilo que o mundo ensinou a esconder.
Serviço
Bate-papo: Narrar diferenças, criar presenças
Com Daniel Moraes e Peter O Sagae
Mediação de Marcela e Fabiana Pacola
📍 Sesc Campinas — Rua Dom José I, 270/333 — Bonfim
📅 23 de maio de 2026
🕑 Das 14h às 15h30
🎟️ Gratuito, sujeito à capacidade CULTURA EM 1 MINUTO do espaço.