FEIRA SUB: DEZ ANOS IMPRIMINDO RESISTÊNCIA, ENCONTROS E NOVOS CAMINHOS PARA A ARTE INDEPENDENTE EM CAMPINAS

FEIRA SUB: DEZ ANOS IMPRIMINDO RESISTÊNCIA, ENCONTROS E NOVOS CAMINHOS PARA A ARTE INDEPENDENTE EM CAMPINAS

Cultura Em 1 Minuto
11 de julho de 2026

Existe uma cena cultural que acontece em silêncio, longe dos grandes holofotes, mas que revela muito sobre o presente e o futuro da arte brasileira. Ela está nas pequenas tiragens, nos livros feitos à mão, nos zines dobrados em mesas de ateliê, nas gravuras que carregam o gesto do artista e nas conversas demoradas entre quem cria e quem encontra uma obra pela primeira vez.

É nesse território que a Feira SUB de Arte Impressa e Publicações Independentes construiu sua história.

Em 2026, o projeto criado por Marcela e Fabiana Pacola completa dez anos consolidado como um dos principais encontros dedicados às artes gráficas independentes em Campinas e região. Mais do que uma feira, a SUB tornou-se uma plataforma de circulação, formação e conexão entre artistas, produtores culturais e público.

A ideia nasceu de uma experiência de descoberta. Marcela e Fabiana frequentavam algumas das poucas feiras de artes gráficas e publicações independentes realizadas em São Paulo e perceberam que havia ali uma energia que precisava chegar a Campinas. Na época, à frente do espaço The MIX Bazar, elas já tinham proximidade com artistas e editoras independentes.

“Pensamos: ‘Nossa, isso é muito bacana! Temos que levar essa experiência para Campinas!’. E foi isso que nos motivou a fazer uma feira de arte impressa e publicações independentes em Campinas, algo inédito na cidade”, lembram.

O que elas não imaginavam era a dimensão que aquele primeiro movimento alcançaria.

“Nunca pensamos que a Feira SUB teria esse impacto. Foi mesmo uma surpresa a receptividade do público desde a primeira edição”, afirmam.

A surpresa vinha justamente do poder de uma experiência que muitas vezes passa despercebida: estar diante de uma produção artística que não nasce para a lógica das grandes escalas, mas para a proximidade.

“É um espaço onde podemos dialogar com o artista que está do outro lado da mesa e disposto a contar incansáveis vezes sobre o processo que está por trás da sua produção.”

O papel como resistência em tempos de velocidade

Em uma era dominada pela instantaneidade digital, a Feira SUB propõe outro ritmo. Um tempo mais lento, onde olhar, tocar e conversar fazem parte da experiência cultural.

Para as produtoras, a força da feira está justamente em resgatar uma prática antiga.

“A Feira SUB não representa exatamente uma nova forma de criar. Mas sim, uma resistência. A experiência do papel, da impressão gráfica, do trabalho autoral e artesanal, é antiga. E é justamente isso que é tão interessante.”

O encanto está no processo. Na obra que carrega marcas humanas. No objeto que não é apenas uma imagem reproduzida, mas uma construção artística.

“Pensar que alguns artistas produzem seus trabalhos de forma totalmente artesanal, feitos um a um, é desafiador. Muito do encantamento que a feira gera nas pessoas vem desse lugar.”

A SUB também revela outra dimensão fundamental da cultura independente: a circulação.

Muitos trabalhos apresentados na feira dificilmente seriam encontrados em espaços tradicionais de venda ou exposição. A feira cria uma ponte direta entre criador e público, fortalecendo uma economia cultural baseada na troca e na descoberta.

Um retrato vivo da arte gráfica contemporânea brasileira

Ao reunir cerca de 90 expositores de diferentes regiões do país, a Feira SUB funciona como uma espécie de mapa da produção independente brasileira.

A curadoria busca equilíbrio entre linguagens, formatos e territórios.

“Temos a preocupação de não apresentar apenas trabalhos locais. Ter esse intercâmbio entre cidades e às vezes até países é também uma forma de conhecer outras maneiras de pensar a produção artística com foco na arte impressa e publicações independentes.”

Ao longo dos anos, as transformações sociais também apareceram nas mesas da feira. Marcela e Fabiana observam mudanças nos processos criativos após a pandemia, com uma aproximação maior entre técnicas digitais e impressões físicas. Mas os temas continuam atravessados pelo tempo presente.

“Já tivemos edições nas quais observamos um volume maior de trabalhos sobre corporeidades, outras sobre botânica, sobre os efeitos da pandemia, outras sobre questões de gênero. E todos esses temas permanecem e são extremamente relevantes.”

A SUB acompanha o mundo enquanto preserva o gesto artesanal.

Cultura como encontro e formação de público

Uma das características que diferencia a Feira SUB é que ela não termina quando as mesas são desmontadas.

Desde o início, Marcela e Fabiana entenderam que seria necessário criar uma programação contínua, capaz de ampliar o acesso e formar novos públicos.

“A SUB precisava circular, ocupar outros lugares e acontecer ao longo do ano, e não somente em um único dia. Era preciso construir caminhos para a formação de público, um processo constante.”

Dessa visão nasceu a Programação Paralela, com exposições, oficinas, lançamentos e bate-papos realizados ao longo de vários meses.

“De todas as feiras que conhecemos pelo país, a SUB é a única que adota esse modelo de fazer uma programação paralela ao longo do ano.”

Essa expansão só foi possível por meio de uma rede de parcerias culturais que conecta diferentes instituições e espaços da cidade, como a Biblioteca Pública Municipal Professor Ernesto Manoel Zink, a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, o Sesc Campinas, a Universidade Estadual de Campinas, espaços independentes, livrarias, festivais e escolas públicas.

A feira deixa de ser apenas um evento e passa a funcionar como uma rede cultural.

Campinas no mapa da produção independente

Ao completar dez anos, a Feira SUB evidencia uma transformação importante: o interior paulista também produz, movimenta e define caminhos da cultura contemporânea.

Em 2025, mais de 4 mil pessoas passaram pelo evento para conhecer os trabalhos de 90 expositores. Para Marcela e Fabiana, esse movimento demonstra a força de aproximar o público de uma cena que muitas vezes permanece invisível.

“A Feira SUB se consolidou como o principal encontro de arte impressa e publicações independentes de Campinas e região. Um papel importantíssimo para a cultura da cidade.”

A 8º edição, marcada para 12 de setembro na Biblioteca Zink, reafirma esse compromisso: ser território fértil para experimentação, produção artesanal e novas narrativas.

No fundo, a Feira SUB fala sobre uma ideia simples e poderosa: cultura acontece quando existe encontro.

Entre uma página e outra, entre um artista e um visitante, entre uma pequena publicação e uma grande descoberta, Campinas revela uma cena que pulsa.

Uma cena feita de papel, tinta e coragem.

Uma cena que prova que, em tempos acelerados, ainda existe espaço para parar, olhar e encontrar uma história impressa esperando para ser lida.

CULTURA EM 1 MINUTO

Notícia na íntegra aqui: